sábado, 12 de dezembro de 2009

Oração


















Acaba meu deus
com essa fome
que me deita à noite
tomada pela boca.
Clamo senhor!
Arranca de minha carne
toda essa vontade.
Faz meu corpo ser só.
Acaba com essa fome
que me rasga e engole.
Absolve meu coração.
Acaba senhor, por amor ou piedade,
com essa mania de paixão.


(Mamá, primavera de 2009)

(ilustração: Vânia Medeiros)

quinta-feira, 16 de abril de 2009



















Era pervesa a tal da dona,
vinha de tempo frio em tempo frio,
casaco grande
para cobrir os grandes seios.
Contam que quando pequena
cometia pequenos delitos,
depois de crescida
devorava homens vivos.
Jamais deixou restos.
Quando satisfeita
lambia os longos dedos.
Bebia aos bocados
pra sentir queimar
o vento.
Contam que quando pequena
vivia com as vergonhas expostas,
depois de crescida
não deixava pedaços de fora,
só viam seus ardores
os homens que comia.
Certo dia, as viúvas da cidade,
armadas com pedra e sabão
raptaram a tal da dona;
cuspiram em suas vergonhas,
queimaram seus grandes seios.
Eram perversas aquelas donas,
não sabiam comer uma mulher.





ps.: Título devorado.
ps2.: Ilustração "rocho" de Vânia Medeiros

sexta-feira, 6 de março de 2009

parole

Certeza agoniada
que cutuca a língua
se derrama em tinta
e água

Dita em verso de amor
acorda acorde de canção
chora transbordando o mar

É a palavra que vem vermelha
Pé descalço em peito amante
feita pra papel e chão

É a palavra que vem surrada
de roupa e alma lavada
pra acalmar o coração.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O Poeta Marinheiro

Me veio manga de quintal
sem garfo ou faca
feito preu lambuzar
boca, rosto e vestido.

Me veio canção
como quem entrega no verso
o beijo mais doce.
Me fez por teus olhos poetisa.

Me veio amor,
sem peso, pressa, fita ou data,
giz de cera no colchão,
gosto de flor de manhã.

Me veio poeta
de amor marinheiro
que dança na areia
e volta pro mar.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Poesia afia choro,
saudade aos pedaços,
seu abandono.

Amor aos pedaços
afia verso,
meu abandono.

Verso aos pedaços
afia saudade do amor
– me abandono.




(Maíra Guedes e Renan Claudino)

sábado, 17 de janeiro de 2009

amor de bolero

Falemos então do amor,
do coração gaguejando na boca.

Do amor sem metades,
que mastiga e maltrata o sono.

Do amor que deve ser vivido até a última gota,
que se derrama e afoga os amantes distraídos.

Falemos desse amor que encurrala o peito,
que salta aos olhos,traz o vento,
faz parecer verão.

Amor sem teto, terra ou chão.
Que não murmura,
amanhece.

Amor que assume os riscos do beijo.
( Ah! Se soubesses quão perigosos são os beijos...)

Falemos desse amor sem eternidades,
que se reconhece canção,
nunca pássaro.

E é em mim, na solidão imitada de risos,
que meu amor há de repousar para sempre,
até o último beijo,
aonde hei de morrer,
para que comigo morra o amor que sinto.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

descompasso

Estou em ritmo valsa
a dançar descalça
pelo salão do rei.

Estou em ritmo salsa
a dançar sem par
no desagrado lei.

Estou em ritmo tango
a dançar mordendo
canções de amores meus.

Estou em ritmo samba
a dançar sem banda
no coração de outros ateus.



(Maíra Guedes, outono de 2006 - Poema musicado por Raiça Bomfim)